Petrificada estava; a antes enrubescida pele perdia qualquer nuance que esbanjasse saúde ou traços de felicidade. Virava uma tela em branco. Cada marca de seu origami facial feito pelo tempo se contorcia em um solitário suspiro. Era chegada a hora. E o flashback de sua trajetória fez questão de contrariar o senso comum: Não pensava no feito e sim nas oportunidades que perdera por falta de paixão que impulsionasse seu ser. Chegara ao tarde demais. Viraria o pó dos mais renegados, daqueles que inalamos e em que nos envolvemos sem perceber a cada passo nas ruas. Pó indigente, similar àquele pelo qual vivera e hoje morreria, mas, com certeza, muito menos valorizado. Mirava os sofridos olhos verdes vira-latas para a porta, esperando que o único fundamental adentrasse para o adeus ou, quem sabe, para seu último pedido de perdão desde que transformara o próprio lar em cinzas. Queria dizer tanto, mas não tinha voz nem platéia; seu leito de morte seria solitário. Talvez, por caridade, tivesse a mão segurada por uma enfermeira brucutu entediada; última grande esmola a receber. O ranger da porta anuncia a reviravolta do fim iminente. Estava diante do maior medo, que não era a morte ou o desconhecido, apenas a dolorosa verdade; cada partícula de todos seus erros vãos. Olhava o recém-chegado com urgência, sentindo as trevas lhe tirarem a única chance de redenção. Ficava abstrata a cada segundo, comprovando e refutando toda tese teológica que, em vida, fora incapaz de codificar com precisão. As mãos visitantes escoraram as fracas mãos moribundas, balbuciando entre um último tremido beijo “Descanse em paz, meu amor.” Perdera o acerto de contas, a aclamada despedida para, enfim, resolver-se com Deus; ou mais abaixo. Para a moral e os bons costumes, aqui jaz mais um frágil errante.
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